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Princesa Sem Tiara

Blog pessoal, de alguém que pela escrita é apaixonada e à moda já há muito se rendeu!

15
Mai17

O Bichinho das Entrevistas!

A entrevista. O convite estava feito e nem os nervos impediram que fosse aceite. " Queres entrevistar a autora do livro "Diário de uma Gorda?" - não escondo o pânico trémulo do meu sim! Numa boutique da tereza orgulhosa e feliz, por esta presença, encontrei mal a vi, confiante, segura, lindíssima e maravilhosa, a Kaluxa. A entrevista apelidada pelo formato, deu lugar à conversa. Sem clichés, sem tabus, sem sensibilidade ao tema. O meu receio que se evaporou em instantes, pelas gargalhas e um ambiente agradável, onde até a nossa diferença de tamanhos, deu assunto. Kaluxa, desde a adolescência, onde assumiu um corpo que sempre foi o seu, num tamanho que grande que sempre conheceu. Aprendeu, a aceitar-se e adiantar-se aos outros, à sociedade, Kaluxa. Não fez do peso, um esconderijo, nem do espelho um pesadelo. Contou-me que detesta o preto e não é fã de balanças. Usa biquínis na praia e se pudesse vestia-se sempre de branco. Mas, a sua paixão por moda não a deixa fazer, seria demasiado repetitivo. Namorou com o rapaz mais giro da escola e sempre deixou as mulheres magras à sua volta roídas de inveja, que não faziam dela concorrência. E, quando lhe perguntei se estava à espera do sucesso do seu livro, disse-me que jamais esperaria, ganhar uma segunda família em cada mulher que hoje a segue e acompanha. À data da entrevista, tinha acabado se ser surpreendida pela notícia que os seus livros já estavam disponíveis no Japão. 
 



1. É impreterível não perguntar em primeiro lugar, como surgiu o Diário de uma Gorda?

R:O Diário de uma Gorda surgiu após ter escrito o meu primeiro livro Os Três Eus.

 

2. Foi algo espontâneo que decidiu fazer ou já há muito que tinha o desejo de publicar o seu testemunho?

R: Quando era adolescente eu tinha um diário, sempre gostei de passar para o papel as minhas vivências, os meus pensamentos. Ora, como sempre fui gorda, achei que seria interessante dar a conhecer às pessoas como é viver dentro de um corpo robusto.

 

3. Sentiu necessidade de dar voz às gordinhas?

Quando escrevi o Diário foi mesmo no verdadeiro sentido da palavra, com uma única diferença de ir expor ao público como é viver sendo gorda. Dar voz às gordinhas sempre foi um objectivo meu, pois nós existimos e primeiro que tudo somos MULHERES.

 

4. Esta sua obra é vista por muitos como um acto de coragem neste país. É difícil falar-se sobre ser gordinha em Portugal?

R: Infelizmente para a maioria sim! Não entendo nem nunca entendi o porquê. Para mim sinceramente foi muito fácil, falei de mim para mim.

 

5. Portugal já precisava de um testemunho assim?

R: Eu acredito que Portugal tenha muitos testemunhos como o meu. O problema é que ainda existe o preconceito de falar de uma “coisa” que deveria ser normal, e o facto de o Diário de uma Gorda estar a “dar que falar”é exactamente por acharem que é um tema tabu. O que não deveria de ser. Ser GORDA é ser MAIOR, não é ser DIFERENTE. Diferentes somos todos nós, essa sim é a grande DIFERENÇA.

 

6. Ficou surpreendida com a reacção que este livro está a ter?

R: Muito surpreendida mesmo! Quando o escrevi nunca me passou pela cabeça que teria este impacto.

 

7. Tem imensas seguidoras que a acompanham diariamente. Alguma vez pensou criar este impacto na vida destas mulheres?

R: Não, de todo. Mas é deveras gratificante, saber e sentir que de alguma forma ajudo tanta gente sem nunca as ter conhecido pessoalmente.

 

8. Fala no seu livro do seu gosto pela moda. O peso alguma vez foi uma condicionante na hora de escolher roupa?

R: Hoje já não. Mas na minha adolescência sim, claro que sim. Não havia muita escolha. Apesar de hoje ainda não ser fácil. Já existem lojas para tamanhos grandes, não muitas, que nos dão oportunidade de vestirmos roupa gira e adequada ao nosso corpo.

 

9. Vemos no quotidiano, que as gordinhas por norma escondem-se atrás da roupa e surge a Kaluxa que veste a roupa e a moda. Como foi aceitar o seu corpo?

R: Eu aceitei o meu corpo entre os 13/14 anos. Quando percebi que era gorda foi porque me chamaram atenção, e ai eu fiquei triste porque me rotularam, ou seja, eu quase perdi o meu nome, o que é frequente acontecer a quem é gordo (a). Simpaticamente houve um amigo meu que me começou a chamar Carluxa (Carla+Gorduxa) até que ficou Kaluxa nome que assumo até hoje com muito carinho. Adoro roupa, cor, acessórios. Sou vaidosa e não é por ser gorda que não iria ser.

 

10. Tem uma relação com o espelho completamente incomum e admirável. Encara-o como o seu melhor amigo neste processo de aceitação?

R: O espelho é sem dúvida o meu melhor amigo. Aliás o meu confidente.

 

11. Refere no seu livro o seu método para saber o seu peso. Aprendeu a lidar com o número em vez de o ver na balança?

R: Não sou adepta da balança, desde que me sinta bem o peso não interfere no meu dia-a-dia, mas assim que me sinto mais pesada aí sim faço dieta, ao contrário do que as pessoas pensam.

 

12. Viu a sua adolescência marcada de certa forma pelo facto de ser gordinha?

R: Durante um, dois anos, sim. Mas quando me aceitei, consegui de alguma forma fazer com que os outros me aceitassem também.

 

13. Namorou com o rapaz mais giro da escola. Como reagiram as suas amigas?

R: É verdade, namorei com o rapaz mais giro da escola. As minhas amigas acharam estranho pois eu para elas nunca seria uma ameaça. Ai está uma parte da discriminação que existe, até por parte das outras mulheres.

 

14. Sente que a beleza é diferenciada face ao peso de uma mulher?

R: Sinto sem margem para dúvida, a sociedade dita padrões de beleza em que o número que se veste faz parte dessa “ditadura”.

 

15. As gordinhas desvalorizavam-se pelo tamanho ou inferiorizavam-se pelo estigma da sociedade?

R: Eu penso que existem gordinhas que se desvalorizem por si mesmas, mas muitas por complexos causados por terceiros.

 

16. Qual foi a melhor coisa que este seu livro lhe trouxe?

R: O ajudar alguém que se esconde por trás de um corpo.

 

17. Um testemunho que virou um sucesso e um exemplo para tantas mulheres. Escreveria este livro se soubesse deste impacto?

R: Sim escreveria!

 

18. Como é saber-se que parte da nossa vida vai ser lida do outro lado do mundo?

R: É brutal, é uma sensação única. Mas se queres que te diga eu acho que ainda não tenho a noção real das proporções que o Diário já tomou.

 

19. Tem desejos no futuro para o diário de uma gorda?

R: O meu desejo é que as pessoas se aceitem como são, independentemente do tamanho, desde que a saúde não esteja em causa.

 

 

 

20. Vista como um exemplo para tantas gordinhas costumam-lhe pedir conselhos quando a abordam?

R. Quando me abordam, eu tento sempre responder com clareza e carinho. Quase viro confidente das gordinhas, o que me enriquece o meu coração cada vez mais.

 

21. Se lhe pedissem uma mensagem, qual seria?

R: Não deixem que o vosso corpo seja impedimento para viverem e serem felizes. Se não gostam, peçam ajuda para emagrecer, mas enquanto são gordas VIVAM, não sobrevivam! A vida é uma passagem, em que cada minuto é para ser vivido, caminhando e sorrindo.

Não se escondam do mundo, mostrem-se!

 
A poucos dias de voltar às entrevistas. Recordo o que já fiz. Descobri coisas que não imaginava. Aprendi o poder das perguntas certas. E pelos meus pensamentos passou mesmo o típico - " eu até gosto disto!". Desde aí, que já fui posta à prova por algumas vezes. Mas houve uma que me marcou. A da Kaluxa. Devido a compromissos marcados, só 1:00h antes é que tive a certeza que conseguiria estar presente, na sessão de autógrafos que realizou na loja da Boutique da Tereza, em Braga. Não tinha tido a oportunidade de ler o livro, nem tão pouco fazer qualquer pesquisa extensiva. E quando dei por ela, estávamos a falar há mais de uma hora. As perguntas fluíam. Umas atrás das outras. E eu sentia-me embebida de conhecimento e de informação. Aprendi o poder das perguntas. Das boas perguntas que não questionam mas perguntam. Com cautela, com carinho. Porque há assuntos que o pedem, o olhar meigo. Outros a gargalhada aberta. E no meio o acompanhamento em conversa. E o tempo voa, quando fazemos o que gostámos. Se antes já tinha o bichinho para as entrevistas, ainda mais amor lhe ganhei quando acabou a conversa com a Kaluxa, e ainda depois, quando esteva a preparar este artigo. É indescritível, o que uma simples pergunta pode encontrar, e é tão bom conduzir assim, conversas de vida!

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